domingo, 25 de janeiro de 2026

 


AMO E ODEIO

 

         Francisco Miguel de Moura*

 

A manhã é meu espelho:

- Odeio as coisas feitas,

quero-as todas por fazer.

Odeio o que é eleito,

quero é constrangê-lo.

Odeio o preço de mercado,

quero a liberdade sem recado.

Perfeição, repetição, alienação...

Odeio o único e o todo,

amo apenas o singular

entre tantos e outros.

Quase morro de tédio

por ter criado objetos, abjetos

porque não tinham arte.

 

Amo ser pleno e livre,

com uma felicidade sem remédio.

 

Ou o dia que não se repete.

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

 

 

sábado, 10 de janeiro de 2026

 


A PARTIDA

 

             Francisco Miguel de Moura*

 

 

Na partida, os adeuses, gume e corte

dos prazeres do amor, quanto tormento!

Cada qual que demonstre quanto é forte,

lábios secos mordendo o sentimento.

 

Do ser brotam soluços a toda hora,

as faces no calor do perdimento,

olhos no chão, no ar, por dentro e fora,

pedem forças aos céus como alimento.

 

Ninguém vai, ninguém fica, e se reparte

no transporte que  liga e que desliga!

Confusão de saber quem fica ou parte.

 

Não se explica tamanha intensidade

amarga, e doce, e errante, que interliga

os corações perdidos de saudade.

 

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*Francisco Miguel de Moura, escritor brasileiro, mora em Teresina,PI

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

 O SEGREDO

            Francisco Miguel de Moura*


 

Foi ontem mesmo a cena que componho,

me está presente, e ainda sou feliz.

Aconteceu-me a mim como aprendiz

do amor, aquele que me quero e imponho.

 

Posso contá-la?  Nem de pé me ponho!

Tinha um jovem feitiço e o olhar  contente,

uma fenda entre os dois dentes da frente

e o seio farto entremostrando o sonho...

 

Logo tomou-me as mãos, deu-me um sorriso.

Lembrando, então, de antiga namorada,

beijei-lhe o rosto, sem perder o juízo.

 

E ela abraçou-me acarinhando a tez...

Hoje relembro a cena apaixonada

como se houvesse uma segunda vez.

 

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta e prosador brasileiro, mora em Teresina, Piauí. E-mail: franciscomigueldemoura@gmail.com


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

 


TERCETOS

 

     Francisco Miguel de Moura*

 

 

Porque dormi ao lado

de alguém só-ridente,

senti-me ser alado.    

 

Porque sonhei deitado,

num sonho imprevidente,

rolei-me ao outro lado

           

Caí no chão, pelado,

mas levantei contente,

ainda assim cansado.

           

É que dormindo amado

amei imensamente

mais do que acordado.

___________

*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro

 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

 


UM QUADRO, QUASE AMOR

                        Francisco Miguel de Moura*

 

Jura(va) a si, mas não jurou a mim,

Pobre e sedento para o seu amor,

Tão d’olhos negros e morena pele

Abrasada de sol pela janela,

Um sol tão necessário - de verão,

E, mais linda, você transparecia.

 

Se teus olhos enganavam (como sei?),

As tuas mãos entrelaçando as minhas, 

Me diziam que não e não, e não! 

 

Quente era o seu fogo e meu odor

Que, tão rápido esvaiu-se qual um sopro

Como um raio riscando a minha vida...

 

Tímidas palavras ciciantes, sim,

Doces, tão doces me inundaram a alma

E subiram-me aos olhos apertados,

E só quase um momento, e se apagaram,

Quando espocou, em força de vulcão,

Da boca de um alguém que lhe guardava.

 

Dois corações ali sobressaltados

Como esqueletos bem por trás do medo 

das armas de teu pai, de teu irmão.

Hoje, depois de tantos anos meus, 

não esqueço o tal beijo fugidio, 

quase cheiro... Era pouco e me deixou

em mim e em ti, talvez (quem sabe?)

a cicatriz do que não pôde ser.

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*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro, sim, senhor..

 

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

 


POEMA DA INQUIETUDE

               Francisco Miguel de Moura*

 

Ai, que vontade de jogar ao mar

os suspiros presos no ventre,

as dores caladas,

as palavras interditas

e aquelas que não foram ouvidas,

e as trevas que se acenderam

no espírito,

numa estação de raiva e desespero!

 

Que fossem para o fundo profundo

da purificação,

e meu amor nascesse novo,

vindo ninguém sabe donde,                          

de há trilhões de anos.

E a bondade cobrisse

as faces da terra.

Iluminassem o sol e a lua

eclipsando todas as maldades,

ao encontro da verdade do universo...

 

Assim teria um Deus

com quem andar conversas

e arrebanhar presentes

para os futuros homens inquietos.

 

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*Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro

sábado, 30 de agosto de 2025

 

                                               2 fotos do autor, francisco miguel de moura

DA VIDA E DA MORTE

                   

                Francisco Miguel de Moura*

 

Há quem busque esta vida noutra vida,

e são felizes recriação da morte.

E quem encontre a vida na antemorte,

e são felizes plenamente em vida.

 

Por que preocupar-se com a tal morte,

se ela vem no seu tempo como a vida,

ou depois. E se o ser está sem vida,

logo o engana e faz dele vida e morte?

 

Há quem, afadigado pela vida,

transforme a vida-vida em vida-morte

e passe uma existência sem ter vida.

 

E há quem viva a dissecar a morte

pra saber se depois da vida há vida,

ou se depois da morte tudo é morte.

 

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 *Francisco Miguel de Moura, poeta brasileiro.

 

 

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